sexta-feira - 14 de dezembro de 2007
O relógio não pode andar para trás

Os ânimos aqui em Bali estão realmente exaltados. A questão climática opôs dois gigantes econômicos. Quem ainda é capaz de acreditar que estamos tratando de questões de natureza estritamente ambiental? Na madrugada de ontem, os EUA apresentaram proposta para substituir o Protocolo de Quioto por acordo não mandatório. Em conversa que mantive com o subsecretário de Eficiência Energética e Energia Renovável dos Estados Unidos, Alexander A. Kersner, este afirmou que “Bali é apenas o início do processo, não havendo possibilidade de se prever metas já na largada”.
Por Daniela Stump*
| |
Arquivo ABTCP |
| |
 |
| |
|
O último dia da CoP-13 e MoP-3 acabou sem acordo sobre roadmap, o “mapa do caminho”, para o período pós-2012. Ministros de 15 países deverão adentrar a noite, a portas fechadas, compondo as bases negociais para os próximos passos dos 189 países em direção à estabilização do clima do planeta.
Foi sob forte tensão que os ministros iniciaram o último dia de tratativas. Na madrugada de ontem, os EUA apresentaram proposta para substituir o Protocolo de Quioto por acordo não mandatório, sendo apoiado surpreendentemente pela Rússia, que até o momento não havia se manifestado nesse sentido. A posição norte-americana provocou inflamada reação dos países europeus, que ameaçaram boicotar o encontro do fórum das maiores economias (“Meeting of Major Economies”), que reunirá 15 países na cidade de Paris, em fevereiro próximo.
Os ânimos aqui em Bali estão realmente exaltados. A questão climática opôs dois gigantes econômicos: EUA e União Européia. Quem ainda é capaz de acreditar que estamos tratando de questões de natureza estritamente ambiental?
Em conversa que mantive com o subsecretário de Eficiência Energética e Energia Renovável dos Estados Unidos, Alexander A. Kersner, este declarou que os EUA esperam respeito mútuo nas negociações e compreensão dos demais paises de que “Bali é apenas o início do processo, não havendo possibilidade de se prever metas já na largada”.
Das palavras do subsecretário norte-americano extrai-se que, primeiramente, as Partes devem avaliar internamente a capacidade de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em seus próprios territórios, antes de colocar outras propostas na mesa, evitando-se que metas gerais futuras estabelecidas não sejam cumpridas.
Kersner fala como se estivéssemos partindo do zero ou como se os relógios devessem, daqui para a frente, andar com os ponteiros para trás. Como se o Protocolo de Quioto não tivesse completado 10 anos. Como se não houvesse quatro relatórios do IPCC alertando para a urgência de respostas. Como se os EUA não fossem o maior poluidor do planeta. Como se grande número dos Estados norte-americanos não tivessem adotado políticas obrigatórias de combate ao aquecimento global. Como se todos fôssemos ingênuos o bastante para acreditar em toda essa ladainha...
A boa notícia é que independentemente do resultado final da Conferência da ONU, o Brasil tem enorme chance de presidir o processo de negociações para o novo acordo pós-2012, devido ao apoio unânime do G-77, grupo dos paises em desenvolvimento, todos Partes da Convenção do Clima.
Enfim, por tudo que vi e ouvi em Bali, posso afirmar, com segurança, que a frase dita por nossa ministra do Meio Ambiente é a melhor metáfora que temos para entender o que se passou por aqui: “antes de desenharmos o mapa do caminho é preciso que tenhamos a vontade de caminhar”.
* Daniela Stump é advogada associada ao Escritório Pinheiro Pedro Advogados e especialista em questões ligadas às mudanças climáticas e sua regulamentação.
E-mail: daniela@pinheiropedro.com.br
O que está em jogo
Brasil rejeita cumprimento de metas no pacote pós-2012. Leia mais...
PPA no Clima
O Escritório Pinheiro Pedro Advogados integra a Delegação Oficial Brasileira nas Conferências das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas desde a CoP-6, realizada em Haia, no ano de 2001. Leia mais...
Entenda as negociações climáticas - Uma retrospectiva
O aquecimento global é considerado o mais urgente dos problemas ambientais vividos atualmente pela humanidade. Leia mais...
Para saber mais
Sites oficiais para consulta. Leia mais...
|