Um Balanço de Montreal

 

Por Simone Paschoal Nogueira e Daniela Stump

         No início de dezembro, foram realizadas, na cidade canadense de Montreal, a 11ª Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 11) e a 1ª Reunião das Partes do Protocolo de Quioto (MOP 1). Os dois encontros tiveram pautas diversas e ocorreram em paralelo, sendo que, da 1ª Reunião, apenas puderam participar os países que assinaram e ratificaram o Protocolo.

         Mesmo que o planeta não possa ainda respirar aliviado, as negociações não foram um total fracasso, como alguns esperavam. Foi efetivado o Protocolo de Quioto e validadas suas regras, em continuação à longa caminhada contra o aquecimento global, inclusive com o início das negociações sobre o 2º período de compromisso das Partes que possuem metas de redução de emissões dos gases de efeito estufa.

         Nas reuniões da Conferência das Partes, instância de decisões da qual participa os EUA, os países concordaram em iniciar diálogo para implementar novas ações, desde que isso não signifique qualquer meta de redução. No entanto, no âmbito dos estados americanos, estes não têm sido apáticos ao problema climático. Em um dos eventos paralelos ao encontro oficial, a Califórnia confirmou a intenção  de redução de emissões de gases de efeito estufa por meio de seu Secretário do Meio Ambiente, Alan Lloyd, que assinou com o Secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Professor José Goldemberg, Memorando de Entendimentos para Cooperação Técnica entre os respectivos governos nas áreas de Fontes de Energias Renováveis, Melhoria Ambiental, Mudanças Climáticas e Biodiversidade.  Por este instrumento, os dois Estados reúnem esforços para combater o aquecimento global em seus territórios.

         Dentre as conquistas de Montreal, destaca-se a ampliação do prazo para a obtenção de créditos de carbono retroativos. Antes, a Conferência estabelecia que as atividades de projetos no âmbito do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, iniciadas a partir de 2000 e anteriores a dezembro de 2001, somente poderiam gerar Reduções Certificadas de Emissões (RCEs) caso registradas até 31 de dezembro de 2005.  Em não ocorrendo o registro de tais atividades até
esta data, as reduções de emissões de gases de efeito
estufa relativas ao período entre 1 de janeiro de 2000 e seu registro não poderiam ser certificadas e, portanto, não valeriam como parte do cumprimento das metas dos países incluídos no Anexo I.


“O Secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Professor José Goldemberg, assina acordo com o Secretário do Meio Ambiente da Califórnia, Alan Lloyd”)

         As Partes do Protocolo concordaram em estender até 31 de dezembro de 2006 o prazo para registro daquelas atividades que se iniciaram entre 01/01/00 e 18/11/04, e submeteram uma nova metodologia ou requereram validação por uma Entidade Operacional Designada até 31 de dezembro de 2005. Essa decisão foi motivada pela lentidão do processo de registro dos projetos, evitando, assim, que aqueles que investiram pioneiramente na causa  pudessem ser prejudicados.

         Em relação ao tema das florestas, merece atenção a proposta submetida pelos governos da Papua Nova Guiné e Costa Rica, que trata da diminuição de emissões por contenção de desmatamento em países em desenvolvimento. Por essa proposta, os países argumentam que, embora o desmatamento de florestas tropicais seja responsável por parte significativa das emissões de CO2, não há nenhuma disposição na Convenção ou no Protocolo que promova incentivos para a diminuição do desmatamento. O Governo Brasileiro apoiou integralmente essa proposta, pois, em sua ótica, o Brasil teria créditos frente à redução de 31% no desmatamento da Amazônia ocorrida no último ano.

         Ressalte-se que, por ora, apenas as atividades de florestamento e reflorestamento podem gerar créditos de carbono. Na última reunião do Conselho Executivo, realizada uma semana antes da COP 11 e MOP 1,  foi aprovada a primeira metodologia de reflorestamento. Esta metodologia foi proposta pela China e aplica-se a áreas degradadas pela ação humana, que pelas condições físicas não voltariam naturalmente a serem cobertas por florestas.

         Assim, as negociações resultaram em um mínimo denominador comum dos interesses dos 189 países signatários da Convenção e das 159 Partes do Protocolo de Quioto, o que não é pouco para um tema que toca em ponto vital para as economias dos países envolvidos. Resta-nos agora esperar a abertura das negociações sobre os comprometimentos futuros, que estão programadas para terem início em maio deste ano.