“Dazibao” é uma expressão chinesa; significa jornal mural afixado na rua. Os chineses fizeram muito uso dos dazibaos durante a revolução cultural e nas lutas pela democratização, contra o regime comunista.

 
Assoviar e chupar cana

Por Antonio Fernando Pinheiro Pedro

Durante muitos anos ouvimos que o Brasil errou ao ingressar no caminho da monocultura. A afirmação é cercada de prudência e tem como inspiração históricas quebras do café e da borracha, no século passado. Até faz sentido para o gestor público não querer correr o risco de jogar a economia num trilho produtivo único. Afinal, qualquer problema que afete a produção poderia comprometer o crescimento nacional por gerações.

No entanto, nossa tradição secular é a cultura de plantation. Nossa vocação territorial concilia toda essa tradição monocultora com a diversidade de culturas. A mecanização, outrossim, redesenha a ocupação de nosso território a ponto de incrementar o restauro florestal dos fundos de vale, encostas e matas ciliares, pois a enxada, que ali avançava, está aposentada - junto com a mão-de-obra humana intensiva.

O etanol é o combustível limpo do futuro próximo. Nós temos tradição, tecnologia e cultura para produzí-lo em larga escala, e não podemos questionar esse fato relevante.

O combustível fóssil está com os dias contados, se não por ser muito poluidor, simplesmente porque vai acabar. Daí que a maior economia do mundo, a norte-americana, procura substitutos confiáveis para o petróleo.

Como as pesquisas com hidrogênio ainda engatinham, os olhares norte-americanos se voltaram para o bom e velho álcool brasileiro. A visita recente de George W. Bush ao Brasil, (ocasião em que o presidente americano pôde alfinetar seu arquiinimigo Hugo "petróleo" Chávez) deixou por aqui produtores de cana alvoroçados.

Trinta anos de experiência no pró-álcool colocam o Brasil como parceiro respeitável para fornecer combustível para as frotas norte-americana e mundial. Hoje, Brasil e Estados Unidos produzem, juntos, 72% de todo o álcool do mundo, ou seja, 40 bilhões de litros por ano, sendo que o álcool brasileiro vem da cana e, o ianque, do milho.

De acordo com levantamentos de entidades ligadas ao agronegócio, cerca de três milhões de hectares são hoje reservados para a cana em território nacional. Prontos para o cultivo, o Brasil tem algo como outros 22 milhões de hectares. Basta uma decisão. Já os Estados Unidos chegaram ao seu limite de expansão. Ainda que quisessem expandir o álcool por lá, não conseguiriam sem altos custos. Não foi à toa que em sua visita Bush quis conhecer usinas brasileiras.

Até 2017, os Estados Unidos vão adicionar à sua gasolina 20% de álcool. Nós, por aqui, já adicionamos 23%. A indústria brasileira produz motores capazes de funcionar com álcool, gasolina ou com os dois. Portanto, produzir o álcool será não apenas um excelente negócio, mas um excelente negócio ambientalmente correto e sustentável.

Aqui começam os problemas. Não é possível imaginar o Brasil como o grande fornecedor mundial de combustível limpo e renovável sem constatar que o país investe pouco em produtividade da terra.

Uma coisa é apostar pesado na cana, outra é fazer isso embasado em novas técnicas de plantio que não fatiguem a terra, e, naturalmente, dentro de um parâmetro de agrozoneamento ecológico, o que não existe hoje.

Cabe ao Brasil não perder o trem da história (leia-se Air Force 1) e se preparar para fornecer álcool para o mundo. Como? Definindo o plano diretor agrário, investindo em híbridos, destravando a bio-genética, descobrindo o que plantar nas áreas de canavial durante o período de descanso da terra, não abandonando culturas regionais e outras que já são desenvolvidas hoje.

O papel do governo federal é exatamente este: definir, fomentar e fiscalizar a produção do álcool, zelando para que o meio ambiente seja respeitado. Caso contrário, esta atual “corrida para plantar cana” pode ser um prenúncio de quebra de safra, com prejuízos para produtores e para o próprio meio ambiente.

São necessários, portanto, marcos legais que adequem demanda e produção. Se não houver harmonia, ficaremos aqui a ver navios.