COLETES AMARELOS E O GLOBALISMO AUTOFÁGICO

O Levante de Paris foi contra a Mesmice do Establishment e o Acordo de Paris

 

"A liberdade guiando o Povo" de Eugène Delacroix, repaginada pelos "coletes amarelos"

“A liberdade guiando o Povo” de Eugène Delacroix, repaginada pelos “coletes amarelos”

 

Por Antonio Fernando Pinheiro Pedro*

O globalismo, destruidor das culturas e provedor da correção política desprovida de causas, começa finalmente a devorar a si mesmo. Como um ouroboros – a famosa serpente que devora a própria cauda, o globalismo desagregador prova do veneno que excretara na política europeia.

O centro da tragédia não poderia ser mais apropriado: París, a capital da França de Emanuel Macron – o entanf gâté do politicamente correto globalista e apartidário.

Em Paris, a República rebelou-se contra a República pela República. E a destruição teve um motivo climático: os coletes amarelos (cuja cor é verde-limão), repeliram a taxa de carbono que seria aplicada sobre o preço dos combustíveis.

Porém, o levante dos coletes amarelos não foi um protesto qualquer. Açambarcou todas as demandas de protesto contra a mesmice do establishment que se pôde encontrar pelo caminho.

“Vamos pra rua porque estamos de saco cheio. O movimento não reúne só aqueles que protestavam contra o preço dos combustíveis. Há uma verdadeira cólera contra a queda no poder aquisitivo da classe média, a injustiça fiscal, a desigualdade entre as grandes cidades e as do interior”, afirmou o professor Mohamed Lyia, de 40 anos, que mora na região de Porte d´Italie, em Paris em entrevista á imprensa.

O sentimento de “saco cheio” é típico dessa crise de valores decorrente de um longo e complexo período de transição, sem epílogo entre duas formas de sociedades politicamente organizadas: o tradicional Estado republicano e democrático, baseado no regime representativo, cameral, constituído por poderes distintos (legislativo, executivo e judiciário), cartorial e burocratizado, e o Novo Estado republicano e democrático, porém organizado em bases participativas, mais dinâmico e consentâneo com a realidade tecnológica e interativa vivida hoje pela multifacetada civilização que hoje experimentamos.

Não escapa dessa explosão sequer a preocupação ambiental, engolfada há décadas por uma ideologia biocentrista e desumanizante que atingiu o limite da paciência do cidadão comum e dos que pretendem viver em uma sociedade livre, realmente sustentável e democrática – e não em uma sociedade embargada pelo arroubo ecologista do administrador da esquina ou atormentada pelas invectivas tributárias naturebas dos abraçadores de árvores de plantão na burocracia de governo.

A busca geral, hoje, é por uma nova fórmula de Estado, globalmente articulado – mas que não se submeta ao globalismo financeiro e à mesmice da ideologia dos ressentidos. Um Estado focado num ambiente de regulação e sensível ao controle social sobre serviços, poderes e bens, sem oprimir o indivíduo e sua intimidade.

Há uma rejeição crescente e global contra o discurso politicamente correto, a tolerância aos intolerantes e a exploração crescente do Estado, cultural e tributariamente, sobre o cidadão comum.

O Brasil precedeu Paris. De fato, o protesto de Paris tornou-se uma versão violenta, incivilizada, dos protestos pacíficos e civilizados brasileiros, ocorridos aqui em 2013.

Lá, como cá, a tolerância à hegemonia dos ressentidos ruiu. O empoderamento dos medíocres e o blablablá dos “progressistas” passou dos limites. O mau cheiro das hordas dos que protestam apenas para atormentar o cidadão comum ultrapassou o suportável e a grita globalista pela inutilidade de ocasião tornou-se inaceitável.

Foi contra tudo isso, com tudo isso aderindo ao movimento.

Não por outro motivo, não houve liderança visível na massa dos que protestaram. O que se observou foi o uso do colete amarelo, a vestimenta que integra mais uma das cada vez mais ridículas exigências apostas por iluminados para a segurança dos demais, que eles não julgam sê-lo…

Os coletes amarelos romperam a ordem, instituíram o caos e, talvez, desse caos poderá vislumbrar-se uma nova ordem.

Nem o Acordo de Paris e o aquecimento verbal dos discursos climáticos estéreis escapou da ira republicana dos “gilets jaunes”. O discurso climático do aquecimento global parece mesmo ter evaporado a popularidade do presidente Macron. Evaporou também a representatividade partidária e a legitimidade das instituições da 5ª República da França.

Macron, o destruidor dos partidos tradicionais da França, partiu-se em pedaços. O jovem líder que um dia imaginara ser o arauto da 6ª República, na verdade está se tornando o coveiro da 5ª.

Trata-se, como já tive antes oportunidade de discorrer, da grande revolução digital. Há, em verdade, um estado de coisas que irá abalar o Estado das coisas… e nada será como antes.

A 6ª República Francesa, enfim, aguarda logo ali, na esquina da história, espreitando o caos… esperando o seu momento.

Nota:
Para saber mais, recomendo a leitura deste artigo:
PEDRO, Antonio Fernando Pinheiro – “A GRANDE REVOLUÇÃO DIGITAL, in Blog “The Eagle View”, 31Maio2014, in https://www.theeagleview.com.br/2013/06/a-primavera-digital.html

afpp18*Antonio Fernando Pinheiro Pedro é advogado (USP) , sócio-diretor do escritório Pinheiro Pedro Advogados. Consultor ambiental, com consultorias prestadas ao Banco Mundial, IFC, PNUD, UNICRI, Governo Federal, Governos Estaduais e municípios. Foi integrante do Green Economy Task Force da Câmara de Comércio Internacional, membro do Grupo Técnico de Sustentabilidade e Gestão de Resíduos Sólidos da CNC e membro das Comissões de Direito Ambiental do IAB e de Infraestrutura da OAB/SP. Jornalista, é Editor-Chefe do Portal Ambiente Legal, Editor da Revista Eletrônica DAZIBAO e editor do Blog The Eagle View.

 

 


Desenvolvido por Jotac